segunda-feira, janeiro 31, 2005

tu

eu sei que
tu         é uma palavra
difícil de dizer
nos olhos


sexta-feira, janeiro 28, 2005

o gato

Não há unidade
como ele,
não tem
a lua nem a flor
tal contextura:
é uma coisa
só como o sol ou o topázio,
e a elástica linha em seu contorno
é firme e subtil como
a linha da proa de uma nave.

excerto de ode ao gato, de neruda

terça-feira, janeiro 25, 2005

o amor mais fundo

este é o amor mais fundo
porque a boca dela
repousa e fica doida
na boca dele
porque se abrem uma na outra
e querem morrer assim
uma na outra

abril94

domingo, janeiro 23, 2005

à memória da Bia, a gata de olhos de âmbar


Somente o traço que ficou no céu
importa agora
e se foi de alegria
em cada hora
e de busca de encontro e companhia
o quererá no céu sulcar também
com renovada asa
qualquer homem por vir
as nuvens tendo por casa
as estrelas por lanterna
e em cada breve momento
a vida eterna.


Agostinho da Silva
(poema para um pássaro morto)

quinta-feira, janeiro 20, 2005

faz parte...

ontem à tarde deixei a porta da cozinha entreaberta enquanto os meus pequenos gatos andavam na passeata do costume pelo quintal e arredores...

mais tarde dei-me conta de que tinha havido uma visita inesperada, quando me subiu ao nariz o inconfundível aroma de marcação de território de macho adulto
DENTRO DA COZINHA!! :/

andei a cheirar os cantos e as esquinas (riam-se, riam-se! :]
e percebi onde é que o diabo do gato visitante andou a fazer as suas aspergidelas

nem mais nem menos que DENTRO dos armários dos tachos e das loiças e tupperwares!!

tenho um belo trabalhinho para esta tarde...
fiquem bem
:)

terça-feira, janeiro 18, 2005

Ela e só ela

Sabes o que ele me disse? Que aquilo é como a primeira namorada. Adormeces a pensar nela e acordas a pensar nela.
Eu já sabia, já te tinha dito, lembras-te?, eu já sabia mas não queria ter a certeza.
Foi assim. Telefonei ontem à hora do almoço lá para casa e a mãe, devia ser a mãe, era a mãe com certeza, disse-me que ele ainda estava a dormir. Há uma data de dias que não o via, não podia mais. Peguei no carro e fui lá.
Quando cheguei, estava a tomar duche e tive de esperar um bocadinho no quarto dele. Ao lado da cama havia um monte de revistas e álbuns de banda desenhada. Na parede um poster a preto e branco do Ian Curtis aos saltos. Sabes, o dos Joy Division que morreu? No chão, a roupa da noite. Entrou tão silenciosamente que, com o susto, gritei. Estava lindo, tão lindo dentro do roupão azul escuro. Nem imaginas como ele é lindo.
Foi tomar o pequeno almoço na cozinha com a mãe e depois disse-me para voltar com ele lá para cima. Fechou a porta atrás de nós mas não a fechou à chave, mas eu pensei de qualquer modo que ele me ia agarrar, beijar, deitar. Eu ainda só dormi com ele duas vezes, mas devia ser proibido fazer amor assim. Agarrou-me por dentro, sabes? Devia ser proibido. Uma pessoa não pode fazer nada.
Mas ele não me agarrou. Tomou um ar sério e disse-me para não ter medo e depois sorriu. Então começou a preparar aquilo. Eu não estava assustada mas fiquei muda todo o tempo. Passavam-me coisas tão depressa pela cabeça que eu não conseguia pensar em nada. Não conseguia tirar os olhos daquilo. Depois arrumou tudo e pôs um disco, como se nada fosse. Eu fiz de conta. Passado um bocadinho chegou um amigo dele, o Tó. Beberam uma cerveja e depois o Tó foi-se embora. Ele voltou a fechar a porta e voltou a preparar aquilo e a fumar aquilo. Para atestar, disse, percebes? Eu não lhe disse nada. Ele gostava mais daquilo do que de mim. Muito mais, tive a certeza. Apeteceu-me chorar mas não chorei. Olhei o Ian Curtis que continuava no seu salto e fiz como se tudo aquilo me fosse indiferente. Uma pessoa consegue.
Mas eu sei muito bem, eu é que lhe sou indiferente. Eu e o resto. Menos aquilo. O que aquilo faz é tornar tudo o resto indiferente, sabes? O verdadeiro inferno. Não me agarrou. Eu é que tive de o agarrar. Parecia um bebé a sorrir. E eu gosto tanto dele, merda. Despi-o e fiz-lhe amor e foi então, logo a seguir, que ele me disse: "Sabes, aquilo é como a primeira namorada. Adormeces a pensar nela e acordas a pensar nela."

Pedro Paixão
Viver todos os dias cansa, 95

segunda-feira, janeiro 17, 2005

O António no hospital

Eu brincava com os dedos grandes dos pés dele, por debaixo dos lençóis todos brancos, enquanto ele dizia disparates, só disparates.

- Por ti deixava de roer as unhas e pintava-as de amarelo. Por ti sacrificava a minha pomba favorita. Tornava concretas todas as minhas ânsias. Por ti fazia tudo, menos que de mim fizesses outro.

Entretanto a fama da sua beleza percorria os corredores assépticos. Insistia em que lhe lavassem o cabelo, a ele que já nem sequer andar sabia. Por vezes duas facas espetavam-se-lhe nas costas e fazia uma careta que logo desfazia.

Eu continuava a brincar com os dedos grandes dos pés dele. Ele era como o mel e ninguém sabia porquê. Eu sim. Eu era a abelha subindo no ar que iria com ele até ao fim de tudo.


Pedro Paixão
Histórias verdadeiras,94

sábado, janeiro 15, 2005

terça-feira, janeiro 11, 2005

segunda-feira, janeiro 10, 2005

o cerco

essa tua boca em que eu me perco
é o meu cerco
é o meu aperto
e eu não sei ao certo
se te quero perto
se te quero longe para sempre

sexta-feira, janeiro 07, 2005

puma


só o gato
apareceu completo
e orgulhoso
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer


excerto da Ode ao gato, de Neruda

quinta-feira, janeiro 06, 2005

quarta-feira, janeiro 05, 2005

canção para ti (1980)

anoiteceu, meu amor
o dia desceu no mar
escrevo o teu nome na areia
o tempo parou por instantes
vagueavas sozinho na praia
juntei-me a ti, mergulhei no teu silêncio mágico
lentamente

anoiteceu, meu amor, pressinto-te perto
corro descalça por ti, a lua poisou-te nos olhos
e soltei os cavalos do vento, demos as mãos
caminhámos num abraço eterno
tão ao longe

encontrei-te no mar, percorri-te de cor
nos teus braços de amor adormeci
embarquei no milagre que há em ti
perdi-me contigo no silêncio do cais...

amanheceu, meu amor
por dentro nasceu o sol
sobes por mim devagar, procuras o céu no meu corpo
num sorriso os teus olhos encontram nos meus
mais uma estrela que se acendeu
em ti deslizo mansamente


l.a.1980

terça-feira, janeiro 04, 2005

Helena, por quem os gregos se bateram

A Helena veio ontem visitar-nos. Telefonou do carro a dizer que vinha a caminho e trouxe o namorado. A Helena que eu não via há muito tempo por preguiça, medo, coisas árduas de lembrar, mal chegou tirou os sapatos e colocou-se em várias posições sobre os sofás da sala enquanto tocava nos assuntos mais diversos.
"A vida é uma coisa muito bonita que se estraga facilmente, tu não achas? Tens visto o nosso amigo João Luís?"
O João Luís há três anos que está fechado em casa, os estores corridos para não saber se é noite ou se é dia. Desde que caiu no patamar das escadas e partiu a mão nunca mais tocou um instrumento. Acredita que no céu vai poder mostrar todas as suas potencialidades. Deus queira.
"Tudo acabou como não devia. Foram sete anos só a viver para aquilo. Foi bom o tempo que dura uma nova paixão, uns seis meses. Depois é um inferno que tu não queres largar nem por nada. Quando entrei na clínica ia a ressacar, era a única, os outros tinham todos tomado a dose da manhã. Hás de me escrever uma canção, que eu quero subir ao palco outra vez. Ouviste?"
E pergunta-me pelo meu irmão Emmanuel que explodiu em casa depois de sete anos a tomar má heroína em vários estabelecimentos prisionais espalhados pelo país. Eu lembro-lhe de há muitos anos ela não me querer senão para chofer e, quando muito, amante ocasional.
"Sobreviver ao sucesso foi mais difícil do que tudo. De resto faço Chi Kung três vezes por semana como uma imperatriz da china imperial. Tu também não estás com mau aspecto. Não tomo comprimidos, detesto todos os químicos e nem quero microondas em casa."
A bela Helena, por quem os gregos se bateram, trazia o cabelo curto, os olhos cansados de ver coisas muito duras de se ver e tinha engordado alguns quilinhos espalhados pelo corpo. O que fazer quando deus nos deu um só talento assim tão grande e não se pode trabalhar?
Não sei o que vai acontecer. Por vezes penso que é bom poder voltar mais uma vez à superfície desta terra e adormeço tão suavemente que nem me dou conta de que partiram.


Pedro Paixão
Nos teus braços morreríamos, 98

segunda-feira, janeiro 03, 2005

Ode à Paz


Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos,
Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
deixa passar a Vida!


Natália Correia, 1989